by Sabrina Diniz

TODO MUNDO que eu conheço tem um amigo ou amiga filha de pais separados. Se você
não tem um é porque ainda não sabe que tem. Não é sempre fácil descobrir. Até
porque não é como se andassem por aí com placas penduradas no
pescoço dizendo “meus pais são separados”, ou algo do tipo. Não.
Você descobre em dias de apresentações
de dança na escola, quando só a mãe dele(a) ocupa um dos dois lugares marcados
para os pais. Ou quando você chama ele ou ela para tomar banho de piscina em um
sábado e recebe a resposta “Não posso. Vou visitar meu pai esse fim de semana”,
geralmente acompanhados de um dar de ombros cansado. Se algum amigo seu
apresentou algum desses sintomas, é tiro e queda: seus pais são separados.
Confie em mim; eu sei do que eu estou falando. Eu tenho sido
a-amiga-que-tem-os-pais-separados por dois anos e quatro meses agora.
É estranho. Esses dias a Marcinha,
minha melhor amiga, me chamou para dormir na casa dela; todas as outras meninas
iriam. Não respondi que sim, nem que não, porque tinha de perguntar a minha mãe
primeiro.
— Mãe, posso dormir na Marcinha?
— Quando? — disse mamãe, terminando de
secar os cabelos com o secador barulhento.
— Hoje à noite — eu disse.
— Já está de noite — ela disse. — E a
senhorita sabe que hoje à noite vamos jantar na casa do Roberto e da Clara.
— Mas se eu não estiver com fome? Ainda
posso dormir na Marcinha?
Mamãe olhou pra mim com a mesma cara
que ela faz quando eu junto comida no canto do prato.
— Marcinha é aquela loirinha baixinha,
não é?
— A-rrã.
— Não conheço direito os pais da
Marcinha.
— Eu também não conheço direito o
Roberto e a Clara.
Clique. Mamãe desligou o secador e ficou me
encarando, o que em linguagem de mãe quer dizer “esta conversa está acabada”.
Fiz um barulho estranho com a saliva na garganta, como se eu fosse cuspir (mas
não cuspi, porque isso seria nojento) e saí para o meu quarto arrastando um
único chinelo no chão, porque o outro par tinha sumido de novo.
A Marcinha tinha me dito para ligar
para ela e avisar caso eu fosse ou não, porque a mãe dela ia fazer
cachorro-quente e precisava saber quantas bocas ia alimentar antes de comprar a
salsicha. Então eu liguei.
Marcinha escutou minha história dizendo
“a-rrã”’s e alguns “poxa vida!”’s. Quando perguntou quem eram os tais Roberto e
Clara, fiz uma careta. Eu tinha certeza que ela já tinha os visto uma vez
quando vieram e ela estava aqui em casa, mas a Marcinha tem memória de peixe,
então eu respondi, num resumo:
— Roberto é o careca altão que namora
minha mamãe.
— A-rrã.
— Clara é a filha dele. Aquela com a
pele morena e cabelos cacheados que nem eu. Ela é meio chata e eu não
gosto dela, mas o ruim é que as pessoas acham que a gente é irmã só porque
somos parecidas. É um saco.
— Poxa vida!
— Eu sempre quis ter uma irmã, mas não
quero uma irmã “pela metade”, sabe? Também não quero que o Roberto seja meu
pai. Quero dizer, ele me parece ser legal, mas ele trabalha na peixaria e às
vezes tem cheiro de peixe.
— Meu pai tem cheiro de cimento às vezes.
— Meu pai de verdade tem cheiro de
perfume — eu disse, lembrando de quando ele me abraçava e eu sentia o cheirinho
bom do pescoço dele. Uma vez papai até chegou a me dar um frasquinho com um
pouco do perfume dele, pois ele sabia que eu tanto gostava, mas, como metade
dos minhas coisas, o frasco acabou sumindo.
— Você não acha estranho sua mãe ter um
namorado? — a Marcinha perguntou, depois de um tempo. — Eu acho super estranho.
— É — e eu concordei, porque eu não
tinha mais nada para falar. — Estranho…
Desliguei o telefone e deitei na cama,
olhando as estrelas de plástico coladas no meu teto. Meu pai que as tinha
colado ali, pouco depois de eu ter cismado de ser astronauta. Isso fora há
alguns anos atrás.
Tínhamos acabado de ver um filme, papai
e eu. A história sobre três irmãos que iam parar no espaço por causa de um jogo
de tabuleiro.
Me lembro de ver os irmãos olharem as
estrelas tão de perto, tão mais brilhantes do que quando as avistamos aqui da
Terra. Perguntei para o papai se tinha um jeito de chegar assim, tão alto. Ele
respondeu que só astronautas iam até o espaço, e que eu podia ser uma
astronauta também, se eu realmente quisesse, mas só quando eu fosse maior.
Eu sorri para ele. Disse que era aquilo
que eu queria ser.
Papai começou a me chamar de Astronauta
desde então. (Mas só quando estava de bom humor. Quando eu fazia besteira,
virava Analu da Costa Silveira Neto).
Nos fins de semana, quando ele tinha
tempo livre, deitávamos no terraço da casa e ele me dizia o nome dos conjuntos
de estrelas, chamadas constelações. Papai também me comprou um mini-telescópio
uma vez (que, pra quem não sabe, é uma espécie de binóculo de um lado só, que
permite que vejamos as estrelas um pouquinho mais de perto). E por fim comprou
as estrelinhas de plástico que brilham no escuro e as colou ali, no meu teto,
para que eu pudesse vê-las toda noite, antes de dormir.
— Estranho . . . — eu disse.
Não lembro exatamente quantas
estrelinhas vieram no pacote, mas, àquele dia, deitada em minha cama, tive
certeza de que havia, pelo menos, umas quinze faltando.
Procurar não adiantaria. Desde que me
entendo por gente vivo perdendo coisas, e, quando eu perco algo, eu perco bem
perdido. Minha boneca que fala novinha, material escolar pequeno em geral,
vários pares de meias e chinelos, a pulseirinha de ouro que ganhei da vovó, o
mini-telescópio que papai me deu. . . A lista continuava. Eu simplesmente
perdia coisas. Talvez estivesse perdendo papai também, já fazia uma semana que
eu não o via . . .
Nessa hora eu quase chorei de saudade,
mas me segurei. Uma estrelinha começava a se soltar do teto. Havia um fiozinho finíssimo que a segurava lá em cima,
acho que era o que restou da cola.
Fiquei observando por mais um tempo, a
estrelinha se soltando cada vez mais e mais e mais até que. . . despencou. Não
desgrudei os olhos dela. Enquanto caía, me sentei o mais rápido possível e
estendi a mão direita para pegá-la, mas ela escapou entre meus dedos e caiu num
minúsculo buraquinho de luz que acabara de se abrir no ar, pouco acima do chão,
do lado da minha cama. Num piscar de olhos, o buraquinho já tinha se fechado e
a estrelinha se foi com ele.
Desci da cama, alarmada. Levantei o
tapete que cobria boa parte do chão do meu quarto. Não era possível! O que era
aquele buraco? Pra onde tinha ido a estrelinha?
Me enfiei debaixo da cama e já começava
a tirar todas as tralhas que estavam lá embaixo quando mamãe bateu na porta.
— Analu — ela disse —, já se arrumou?
Roberto chegou para nos buscar.
— Estou indo! — eu respondi, mas como
eu não estava indo coisa alguma, mamãe acabou abrindo a porta e me viu debaixo
da cama.
— Analu, o que está fazendo? — ela
perguntou.
— Nada! — eu disse, sorrindo e
levantando ao mesmo tempo.
Mamãe olhou no relógio de pulso e
suspirou.
— Olha, eu vou lá no meu quarto pegar um
par de brincos e quando eu voltar quero vê-la arrumada, entendido?
Eu balancei a cabeça que sim. Mamãe
saiu do quarto e eu peguei a primeira coisa que achei no armário para vestir:
bermuda cor-de-rosa, casaquinho azul, e um par dos meus tênis novos porque o
outro . . .
— Sumiu! Ai meu Deus, mamãe vai me
matar!
Como se ouvisse meus pensamentos, lá de
fora, ouvi o grito:
— Analu, vamos! — era mamãe.
— Estou indo! — gritei de volta.
Eu tinha um pé só de outro modelo
parecido com aquele, mas a cor era diferente: um era roxo, o outro era azul.
Calcei os dois e saí do quarto correndo para a sala onde Roberto e Clara
estavam, porque sabia que a mamãe não iria brigar comigo na frente da visita.
— Olha só quem chegou! — disse Roberto
quando me viu. Ele era tão alto que teve de se dobrar no meio para me abraçar.
Para minha surpresa, ele não estava cheirando a peixe como de costume. Então eu
disse:
— Você tomou banho!
Roberto fez cara de limão azedo. Acho
que ele não entendeu o elogio.
Mamãe fez um barulho estranho com a
garganta, que em linguagem de mãe quer dizer “a gente se fala mais tarde”.
Clara ainda não tinha falado comigo. Desde
que chegou, não tinha desgrudado os olhos do celular — tec tec tec, faziam seus dedos nos botões da tela. Não que eu
fizesse questão que ela falasse comigo; mas se tem uma coisa que mamãe e papai
me ensinaram bem, é como ser educada. Clara era visita e não tinha falado
comigo. Era falta de educação.
— Clara — disse Roberto, se virando
para a filha —, não vai dizer oi?
Tec tec tec . . .
Ela levantou os olhos para mim um
segundo, disse — Oi — com cara de tédio, e voltou a fazer aquele tec tec chato.
Fiquei encarando a Clara por um tempo,
pensando na tragédia que seria se Roberto e mamãe se casassem e nós virássemos
irmãs. Enquanto isso, mamãe e Roberto conversavam algo que eu não ouvia, até
que:
— Vamos? — disse mamãe. E nós saímos de
casa.
Sabe aquelas ocasiões especiais em que
o tempo não passa? Como quando esperamos com nossas mães em fila de banco, ou
quando estamos numa aula chata da escola, esperando a hora do recreio?
Quando sentei no banco do carro do
Roberto, tive a certeza de que a noite seria daquelas.
Roberto no banco do motorista, mamãe do
lado dele. Eu e Clara no banco traseiro, e ela em seu celular.
Tec tec tec tec
tec tec tec tec . . .
